
"O que hoje é um paradoxo para nós, será uma verdade demonstrada para a posteridade." (Denis Diderot).
Ivan Pessoa*
O homem é o único animal capaz de formular paradoxos. No século VI a.c, um certo filósofo cretense de nome Epimênides, teria escrito um poema. São Paulo em sua Epístola a Tito faz uso deste: “os cretenses são sempre mentirosos.” (1,12). Incluindo o próprio Epimênides, o formulador do provérbio? Se o for, o poema está equivocado, pelo simples fato de não dar confiabilidade àquele que o pronuncia, cretense como os demais, todos mentirosos. Ora, o paradoxo envolve um círculo inexpugnável, como se eu me pusesse em dizer: todos os brasileiros são mentirosos. Eu sou brasileiro. Logo, eu sou mentiroso. O paradoxo auxilia-nos a perceber que existem coisas e idéias imponderáveis, que por mais que nos esforcemos, ainda assim algo permanecerá em aberto, como a velha questão: quem criou o homem? Deus. Mas quem criou Deus? Existe um ponto que a razão não alcança, em função de seus limites cognitivos, restando-lhe a complacência. A velha imagem da cobra mordendo o próprio rabo está na tônica daqueles que perguntam exultantes: “quem surgiu primeiro, o homem ou a sociedade?”. Eu mesmo que pergunto, estou em sociedade, consequentemente crio um paradoxo. Uma coisa é certa, o ponto de partida para a efetivação do homem enquanto tal, teria acontecido com a criação da linguagem e a posterior atividade política, como teria alegado Jean-Jacques Rousseau em seu Contrato Social. Por mais impreciso que possa parecer, o surgimento do homem em sociedade, relaciona-se com o exercício da política, uma atividade que dá condições do humano harmonizar-se com os demais semelhantes.Toda a história do Ocidente é o desdobramento daquele velho conceito grego, que consuma nas assembléias as decisões dos cidadãos atenienses. Na Idade Moderna, a noção clássica de Eclésia e de areópago, como conceitos helênicos representando o espaço reservado às decisões políticas, tendo a palavra como mediação, passa a significar: parlamento, na acepção que vem do francês parlement, extraído etimologicamente do verbo parler (falar). Nos séculos XVI e XVII no apogeu do Absolutismo espanhol, parlamento vincula-se à palavra: palabramiento, com o sentido aproximado de parábola, o que nos dá a entender a peculiaridade e o sentido deste espaço de decisão política. A grande carga semântica que traz a palavra parlamento, nos faz compreender que o sentido mesmo da atividade política é da comunhão arrazoada de argumentos, aliás, do ato articulado do falar, o que nos faz diferenciar-nos dos demais animais da natureza. De posse dessa capacidade inteligível, que lhe faz representar códigos e signos, o ser humano empreende a atividade política no instante em que começa a se compreender como um ser que fala, um homo loquens. Segundo os gregos, haveria uma ordem imanente à esfera pública, que comunicaria o cosmos e a Terra. A isso eles deram o nome de: política, que é senão o lado divino que existe em cada um de nós e que só se externaliza enquanto palavra, diálogo. Fora da vida política, alijando-se da vida pública, o homem seria ou uma besta ou um deus, como teria dito Aristóteles, porque a condição de possibilidade para o ser humano enquanto tal é a publicização de seus anseios, vontades e desagravos.Ainda me parece insondável bem como a boa parte dos sociólogos contemporâneos, determinar com precisão onde se inicia a sociabilidade do ser humano, sobretudo, em função de estarmos como que entranhados com esta questão, o que gera um reductio ad absurdum. Ora, estou dentro de uma dada sociedade, e ainda assim pretendo precisar a gênese de minha sociabilidade. Encontra-se ai um grande impasse, restando-nos a tácita compreensão de que a partilha de uma dada linguagem com seus respectivos códigos, é o fundamento de qualquer agrupamento social. O indivíduo é o resultado distante de um arranjo social, retroalimentando, quer queira, quer não, sua sobrevida. A defesa liberal é a de que o indivíduo tem antecedência sobre a sociedade, fundando-lhe. Em contrapartida, os marxistas crêem que a vida social, com suas condições objetivas e históricas, preexiste ao indivíduo, configurando-o. Na verdade a vida social é o diálogo que se efetua entre o indivíduo e o Outro, não havendo prevalência de uma variável sobre a outra, mas um intercâmbio.Por mais que seja de todo impossível precisar, só a política teria condições de atualizar a potência do homem enquanto tal, representando em meio ao paradoxo do ser humano e da sociedade, uma síntese. Animal dotado de certas peculiaridades, o ser humano seria o único capaz de formular paradoxos, e o único capaz de superá-los. Infelizes os galináceos, afinal: quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
*Professor contratado do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Maranhão.